 XXVI MARCHA DA AMIZADE 22 e 23 de Outubro Serra da Peneda (Branda do Alhal – Senhora da Guia) (Galeria fotográfica) Há quem diga que este ano a Marcha da Amizade foi diferente. Mas até talvez nem tenha sido bem assim, porque nesta sua 26ª edição retomou-se a vertente desportiva que chegou a ser imagem de marca desta actividade. A opção implicou um numero mais reduzido de participantes. Tanto mais que já se sabia que só apareceriam os que estivessem prontos para carregar às costas o seu equipamento, dispostos a dormir em tendas no meio do monte e fossem capazes de atravessar a Serra sem guias, orientando-se apenas com mapas e bússola. Coisas de gente um pouco desfasada no tempo, já se vê. O clima encarregou-se de tornar as coisas ainda mais duras e afastou alguns dos companheiros que inclusivamente já se haviam inscrito, mas, mesmo assim, ainda houve quem decidisse arriscar. Assim, no Sábado de manhã, começaram a chegar à Branda do Alhal os primeiros participantes. Alguns um pouco hesitantes, pois, retomando uma também já antiga tradição, a actividade começou bem “regada”. Não com vinho num qualquer tasco (porque meio do monte não há disso), mas por abundante chuva. Chuva, que nos fustigou durante várias horas e chegou mesmo a fazer desistir alguns companheiros. No entanto, ao final da tarde, talvez como recompensa pela perseverança posta à prova ao longo de seis horas de marcha, os pouco mais de 30 Montanheiros que concluíram essa primeira etapa, puderam ainda ver o sol romper por entre as nuvens no momento em que chegavam ao local de pernoita. De facto, como que por milagre, o céu acabou por limpar completamente nesse momento. Até chegou a ser possível secar parte do equipamento e admirar um belo por de sol e a noite estrelada que lhe sucedeu. O acampamento foi montado no terreno junto ao santuário da Senhora da Guia, propriedade das gentes de Gave e gentilmente cedido pela comissão de “Meseiros”, confrades, escolhidos por eleição, que gerem aquele património. Ao anoitecer os jantares cozinhados nos pequenos fogões a gás proporcionaram a reunião dos Montanheiros num convívio espontâneo e agradável. Não houve euforias etílicas, tristemente habituais noutros locais e circunstâncias, nem quem perturbasse a paz e serenidade que emanam daquele local de culto perdido no meio da serra. Todos estavam suficientemente cansados para se deitarem cedo e, pelas 22H00, conforme estava previsto, fez-se silencio total na Senhora da Guia. Consta-se que, quando a lua já ia alta, se ouviu o distante uivar dos lobos e os gritos de desespero das suas vítimas. Mas dizem as más línguas que seria gente a ressonar enquanto os das tendas mais perto clamavam por sossego... No segundo dia, um sol radioso acordou-nos e, por entre uma ligeira bruma, foi aos poucos surgindo a paisagem deslumbrante da Serra da Peneda. Algumas horas depois o acampamento era desmontado e tudo novamente empacotado nas mochilas. Confirmada a limpeza da zona, as primeiras equipas iniciaram o percurso. O trajecto, aproveitando trilhos antigos, cruzou o ponto mais alto da Serra da Peneda, passando pela nascente do rio Vez e pelas ruínas de velhas brandas: Furado; Real; Arieiro; Lamelas; Baragal e Rio Covo. Toda a marcha se desenrolou conforme o previsto com as equipas a terminaram sem percalços, muito embora nem todos tenham conseguido orientar-se sem o auxílio pontual do pessoal da organização, que guarnecia postos de controle em locais estrategicamente escolhidos. Em todo o caso, sem pressas e fortemente motivados, todos conseguiram efectuar o percurso em menos de seis horas, tal como havia sido previsto. À chegada, as opiniões foram unânimes: mesmo com a chuva do primeiro dia, todos gostaram: do percurso; do local de acampamento; do convívio; da aventura e do desafio que representa uma actividade deste tipo naquelas condições. Foram muitos os que sugeriram que se repita este modelo na próxima edição da Marcha da Amizade. ********** Em jeito de balanço, e embora correndo o risco de ser juiz em causa própria, parece-me que já fazia falta uma actividade como esta. De facto, no calendário da Secção de Montanha já existem várias actividades destinadas à divulgação: Marcha da Primavera, Marcha do Outono e Marcha das Vindimas. Todas elas de um só dia, sem carga ás costas, guiadas e perfeitamente adequadas para quem porventura não tenha capacidade técnica ou física para uma marcha de travessia com total autonomia. Não obstante o grosso das actividades internas da Secção decorram exactamente nesse regime de marcha com orientação e total autonomia logística, faltava no nosso calendário uma actividade desse tipo. Assim, esta 26ª Marcha da Amizade surgiu como um corte com as “marchas de parque de campismo e estradão”. Até porque, segundo a opinião de alguns, a actividade vinha a desvirtuar-se como resultado das tentativas para aumentar o número de participantes através da oferta de “luxos” pouco habituais no Montanhismo. Em muitos casos as pessoas inscreviam-se só porque sabiam que a Marcha estava sediada num parque de campismo, com restaurante e água quente para banhos. Ao Parque chegavam de carro e, muito embora a maioria participasse na marcha, alguns aí ficavam todo o fim de semana. Outros, limitavam-se a fazer parte do percurso e depois de recebido o respectivo crachá regressavam a casa. Claro está que quando se parte de uma parque de campismo, dificilmente se consegue delinear um percurso exclusivamente em ambiente de montanha e sem por passar por estradas ou pelos intermináveis estradões. Não criticando essas opções que são perfeitamente legítimas noutros contextos, e até aceitáveis numa perspectiva de divulgação da modalidade, parece-me que um quadro desse tipo mais terá a ver com o Campismo do que com o Montanhismo. Assim, existindo já as tais actividades de divulgação e ainda outras de formação (Cursos de Montanhismo), faltavam as verdadeiras marchas de montanha. Esta 26ª Marcha da Amizade foi uma tentativa para as fazer renascer. Claro está que esta opção é polémica e sem dúvida que reduz o número de participantes. Mas, será que nas actividades de Montanhismo alguma vez o objectivo poderá ser o juntar na Serra pequenas multidões ? Parece-me que não. Embora possa não transparecer, esta foi também uma aposta que obrigou a um imenso trabalho colectivo de preparação e acabou por reunir vários elementos da Secção de Montanha em torno de um objectivo comum. Desde os reconhecimentos do percurso, com vista a escolher o trajecto mais adequado; passando por vários fins de semana a desbravar os caminhos tornados intransitáveis pelo crescer anárquico das espécies infestantes; até ao levantamento de dados com vista à elaboração dum mapa actualizado e à preparação de percursos alternativos para eventuais evacuações de emergência, muito teve que ser feito. Mas, ao que se viu, esse trabalho não foi em vão. Valeu a pena e na próxima edição retomaremos este modelo. Pela organização, Vitor Teixeira |